O que há de novo na educação de adultos?

Há muito se fala em andragogia, uma série de princípios que visam nortear a educação de adultos. Contudo, mesmo em ambientes formais de educação voltados a este público, predominam ainda metodologias arcaicas tradicionalmente herdadas da pedagogia.

Muito além de um simples neologismo, a andragogia pretende se firmar como um arcabouço teórico de práticas que produzam a melhor educação possível para adultos. Sua origem é relativamente recente se comparada às práticas pedagógicas, e remonta a uma era na qual não havia tantas preocupações com a educação de adultos, o que se ensinava a crianças era o bastante para uma vida inteira.

Os princípios andragógicos, conforme concebidos nas décadas de 50 e 70 pelo pesquisador americano Malcolm Knowles (1913-1997), são hoje amplamente difundidos em todo o mundo e considerados por educadores de adultos como a melhor referência sobre o tema ora em análise. Esses seis princípios consideram que a criança e o adulto aprendem de formas distintas, são eles:

Princípio 1: Necessidade de saber. A busca pela aquisição de determinado conteúdo se distingue na sua finalidade entre uma criança e um adulto.

Princípio 2: Autoconceito dos aprendizes.O grau de independência com relação ao que se aprende está em lados opostos nas duas fases da vida.

Princípio 3: Papel da experiência dos aprendizes. A experiência adquirida na vida com aquele aprendizado é pouco relevante na criança e significativa no adulto.

Princípio 4: Prontidão para aprender. O nível de prontidão ao aprendizado modula o interesse pelo conteúdo.

Princípio 5: Orientação para aprender. Enquanto na criança o aprendizado é orientado pelo conteúdo em si, no adulto é pela sua aplicabilidade na vida prática.

Princípio 6: Motivação. A criança se motiva por incentivos extrínsecos enquanto um adulto principalmente por razões intrínsecas e os benefícios daquele aprendizado na sua vida.

Enquanto as práticas educacionais sofriam poucas mudanças ao longo das últimas décadas, uma verdadeira revolução era forjada nos laboratórios das universidades por todo o mundo, as fascinantes descobertas da neurociência. E isso foi possível em grande parte graças aos avanços fenomenais dos exames do cérebro por meio de imagens, com destaque para a ressonância magnética funcional (fMRI). Esses achados vêm mudando sensivelmente a compreensão sobre o papel do cérebro e suas funções em todas as áreas da vida cotidiana a ele relacionadas, como a inteligência artificial, tecnologia, comunicações, marketing etc.

Desta forma, era de se esperar também que os conhecimentos acumulados em neurociência produzissem consequências dramáticas na área de educação, uma vez que os mecanismos moleculares de aprendizagem, para ficar apenas em um exemplo, passaram a ser revelados em detalhes antes inacessíveis à ciência. Esses achados, portanto, abrem um magnífico veio de exploração aos estudiosos dos processos educacionais.

Assim, chegamos a algumas questões fundamentais: o que a neurociência tem a dizer sobre a andragogia? Há achados neurocientíficos que suportam os princípios andragógicos?

A primeira questão apresenta uma resposta ainda incompleta. Embora, saiba-se muito sobre o cérebro hoje em dia, ainda estamos muito longe de desvendar todos os seus mistérios, inclusive inúmeros ligados à aprendizagem e memória.

A segunda questão encontra-se bem fundamentada na literatura científica. Embora os princípios de andragogia remontem a uma época na qual o estudo do cérebro era feito de modo totalmente empírico, hoje há farta documentação na neurociência que corrobora com a validade dessas premissas da educação de adultos.

Apesar dos grandes avanços nas áreas de estudo do cérebro, apenas uma pequena parte desse conhecimento chegou à realidade educacional em termos práticos de modo a impactar a vida dos aprendizes, especialmente no ensino de adultos. Grande parte dessa defasagem decorre do desconhecimento pelos educadores de adultos das práticas mais eficazes de instrução andragógicas.

A partir do conhecimento dos princípios de andragogia, embasados pelos recentes achados da neurociência, esperamos que profissionais protagonistas da educação de adultos reflitam sobre suas práticas instrucionais e consigam aperfeiçoá-las à luz do conhecimento acumulado acerca da aprendizagem humana.

Por Prof. André Rios